Tinder dos tempos antigos


Na ressaca do carnaval, enquanto as farmácias renovam os estoques de Engov e muita gente procura forças para voltar à vida normal, bombam as histórias de pegação ou romance surgidas na festa de Momo. Além do bom e velho olho-no-olho (não inventaram nada melhor), a paquera do carnaval ganhou diferentes possibilidades com os aplicativos. Nesses novos tempos de escolha de parceiros a la carte, como bem define um sociólogo, o costume está difundido a tal ponto que duvido que você não conheça um casal que não tenha se formado com a ajuda de sites de namoros ou de aplicativos. Um dos mais famosos, o Tinder, parte de um princípio interessante: unir pessoas que querem conhecer outras, filtrando pela foto e por uma lista de características predefinidas em comum – idade, distância etc. É isso, produção? Se há interesse mútuo, os pombinhos podem bater papo on-line e o primeiro passo foi dado. Daí em diante cabe aos crushs darem prosseguimento ou não ao interesse inicial. O máximo da modernidade? Será?

Para quem acha que isso é muito inovador, aqui vai uma decepção. Parece uma atualização das antigas agências de casamento, que todo mundo já ouviu falar e que já foi motivo de muitos filmes. Mas vou mais longe ainda, pois chegou às minhas mãos uma preciosidade. Um cartão que teria sido do meu bisavô, que ofereceu à minha bisavó, que era uma maneira de demonstrar interesse amoroso. Tal como o Tinder, a outra pessoa podia aceitar ou rejeitar – dobrando a pontinha do cartão e devolvendo ao interessado. Trata-se, assim, de uma versão analógica movida pelo mesmo princípio, exceto pela grafia mais arcaica, remontando, ao que tudo indica, ao começo do século XX com consoantes dobradas (soffre e acceitasse) e um exagero digno dos românticos: alma sofrer e aceitar os protestos de amor. Fico imaginando a nova geração dos 16 anos entregando um cartão desses hoje em dia.


Felizmente, minha bisavó aceitou os protestos de amor, como vemos pela pontinha esquerda, que traz além da marca do tempo, a marca da dobra. E por isso, aqui estou eu hoje para contar essa história. Os nomes se apagaram, junto com os anos que ficaram para trás, mudando tanta coisa, inclusive nos relacionamentos amorosos. Os aplicativos podem até facilitar o encontro, mas, ainda mais importante que isso, a melhor novidade é o poder de escolha que cabe também às mulheres. Elas não precisam ficar esperando os cartões dos pretendentes chegarem, como naqueles tempos antigos. Agora podemos escolher a vida que desejamos. Isso, sim, vale a pena ser comemorado.

Sílvia Dantas é redatora da Conceito Comunicação Integrada


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